Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Como boicotar a sua própria felicidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.08.09

 

As surpresas do fim de um dia podem acontecer-nos até em francês! Não faz mal. Emma Thompson e Anthony Hopkins dobrados na língua romântica da Europa, passa. É heresia, eu sei, e também prefiro mil vezes as vozes dos actores, são indissociáveis dos actores e tudo isso, mas... gosto tanto tanto deste estranho filme que fiquei a vê-lo mesmo assim dobradinho...

 

The Remains of The Day, um dos filmes mais estranhos e tristes, pelo menos para mim. Há lá coisa mais triste que a incapacidade de comunicar? E tendo todos os elementos necessários: Mr. Stevens não é cego nem surdo nem mudo, mas é como se o fosse, ou pior ainda!, uma alma  incapaz da expressão dos afectos e fechada aos afectos de outros.

 

Se tivesse de procurar em cinema a personagem-contraste com este mordomo iria parar ali no escritor d' O Meu Pé Esquerdo. Tudo o impossibilitava e limitava para a comunicação com outros seres humanos. Não só limitações físicas, também as sociais, um meio operário, embora numa família muito especial, sensível à cultura, o que em si já é magnífico!

 

É esta rigidez formal que irá impedir Mr. Stevens de ser feliz na companhia de uma mulher que, além de o amar, o aceita com as suas idiossincrasias, o que já é um achado, uma raridade. Mas esta mulher é especial, o equivalente para Mr. Stevens da mãe para o escritor, capazes desse amor incondicional, de os aceitar tal como são.

 

Sim, embora alguns textos sobre o filme refiram esta lealdade de um mordomo, penso que o que vemos aqui ultrapassa tudo isso: trata-se de uma clara dificuldade em aceitar, exprimir e viver os afectos.

Mr. Stevens fechou-se de tal modo nesse uniforme, nesse papel de uma lealdade formal, que se esqueceu de viver, de levar uma vida acompanhada, de sintonizar afectivamente com essa mulher. Nem mesmo quando a ouve chorar, desamparada, no maior desespero. O que lhe diz? Fala-lhe de pormenores da casa, de trabalho: um recanto na adega que precisa de ser mais cuidado pelo pessoal!

E no entanto vemo-lo perturbado, pelos sentimentos que pressente nela e em si mesmo.

 

Sim, Mr. Stevens torna-se perito em boicotar a possibilidade da sua felicidade.

 

Este filme continua a acompanhar-me. Este Mr. Stevens incomoda-me, ficou a moer-me os neurónios:

Mr. Stevens deixou-a partir. Sabia, porque ela lhe dissera, que uma palavra sua, um gesto seu, a teria impedido de partir. Mas nada lhe disse, nada fez para que ela ficasse.

 

Os anos somaram-se. Miss Kenton construiu uma vida familiar, essa construção afectiva a que as mulheres se ligam de forma visceral (ou animica). Sem saber bem o motivo, aqui pensei num texto de Marguerite Duras, A Casa, (1) e foi a partir desse texto claro e cru, que comecei a perceber a partida de Miss Kenton para essa família possível, essa casa habitável porque sua, por si sonhada.

 

Mas este Mr. Stevens ficou ainda a moer-me os neurónios! Depois de a deixar partir e de ter visto esses anos somarem-se uns aos outros, e de ter visto a sua realidade, a triste lealdade canina a um mundo para o qual ele apenas existe enquanto for funcional, Mr. Stevens ainda espera que ela volte. E mesmo quando a vai visitar pensa nessa possibilidade.

Mas a mulher construiu uma família, casa. O seu novo centro de gravidade. O homem tem dificuldade em entender isto, como nos diz Marguerite Duras.  (2)

 

Reparem bem naquela despedida, nessa noite chuvosa. De todas as despedidas que já vi em cinema, esta só é comparável à da Ida Lupino e do Humphrey Bogart no High Sierra, quando também ele a deixa num autocarro.

 

Ainda vou voltar aqui a este filme que não me larga, nem que mais não seja para o corrigir e colocar acentos e cedilhas.

Mas antes disso, preciso esclarecer melhor essas diferenças de perspectiva da casa e da família possível, do homem e da mulher. E para isso vou pegar de novo no texto de Marguerite Duras:

"Penso, fundamentalmente, que a situação da mulher não mudou. A mulher encarrega-se de tudo na casa mesmo que a ajudem, e mesmo que seja muito mais informada, muito mais inteligente, muito mais audaciosa do que era antes. Mesmo que tenha agora muito mais confiança em si. Mesmo que tenha escrito muito mais, a mulher em relação ao homem ainda não mudou. A sua aspiração essencial ainda é manter a família, tratar dela. E se socialmente mudou, tudo o que fez, está a fazê-lo além disso, dessa mudança. Mas o homem terá mudado? Praticamente, não. Talvez grite menos. Também se cala mais, agora. Sim. Nao se vê que haja mais nada para dizer. Acontece-lhe estar em silêncio. Chegar ao silêncio naturalmente. Descansar do barulho da sua própria voz.

A mulher é o lar. Era. Ainda ali está. Podem fazer-me a seguinte pergunta: E quando o homem se aproxima do lar, a mulher suporta-o? Digo que sim. Sim, porque nesse momento o homem faz parte das crianças. ..."    (3)

 

 

 

(1)  Duras, Marguerite - A Vida Material - Círculo de Leitores, Julho de 2003

(2)  "... a permanência da mulher na casa continua a ser da mesma natureza. Trata-se sempre de uma existência como se estivesse escrita, já descrita, mesmo aos seus próprios olhos. De um papel, de certo modo, no sentido habitual do termo, mas que ela representaria para si própria inevitavelmente e sem quase ter consciência: assim, no teatro da solidão profunda que é durante séculos o da sua vida, dessa maneira, a mulher viaja. Essa viagem não é guerras nem cruzadas,  é na casa, na floresa, e na cabeça crivada de crenças, muitas vezes enferma, doente.  ... O homem não sabe desta partida das mulheres. O homem talvez não saiba destas coisas. O homem está ocupado com um trabalho, uma profissão, tem uma responsabilidade que não abandona nunca, que faz com que ele não saiba nada das mulheres, nada da liberdade das mulheres. Muito cedo na história, o homem deixa de ter liberdade."  (pags. 58, 59)

(3)  Duras, Marguerite - A Vida Material -Círculo de Leitores, Julho de 2003, pags. 53, 54.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:20

Os filmes muito arrumadinhos dos anos 50

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.08.09

 

Nesse fim de semana de excessos cinematograficos, ainda vi o Giant pela terceira ou quarta vez. Foi no sábado.

Gosto dos filmes dos anos 50 muito arrumadinhos e muito postal ilustrado como este Giant. vá-se lá saber porquê!

 

Aqui, são os actores Liz Taylor e James Dean que fazem o filme, que lhe dão a consistência e a atmosfera.

Jett ficará para sempre fascinado por ela, desde o primeiro momento em que a viu. Fará tudo para lhe agradar. Como um rapazinho, obedece-lhe mesmo em iniciativas que contradizem as suas convicções, a sua cultura texana: ajudar os empregados mexicanos nos cuidados de saúde, nas condições em que vivem. Esse é o primeiro choque cultural vivido por esta jovem mulher.

Sim, Jett pensa, erradamente, que é o dinheiro, ou a falta dele, o grande obstáculo para se aproximar dela, para a impressionar. Aquela mulher valoriza outras qualidades e dir-lho-á: O dinheiro não é assim tão importante...

Ao que ele responde, irónico: Não é importante para quem o tem...

Mas se é verdade que o dinheiro é importante sobretudo para quem não o tem, também é verdade que é nas outras qualidades que esta mulher fixa a sua vida ali, no meio daquela imensidão texana. É essa a sua razão de viver: cuidar da sua família, dos empregados e dos habitantes da aldeia.

Essa razão de viver passará para o seu único filho homem, que quer ser médico e exercer na aldeia. Essa ausência de preconceitos raciais passa, curiosamente, de mãe para filho. É assim que ele formará uma família-síntese de diversas culturas.

 

Apesar de Rock Hudson encaixar às mil maravilhas num filme assim arrumadinho dos anos 50, não me parece que exemplifique um espécimen masculino texano dos anos 20 aos anos 50. Não me parece. Mesmo mimado pela irmã mais velha, Luz... mas isso são convicções e cepticismos muito pessoais, pois procuro sempre a verosimilhança, a credibilidade das personagens.

Não me parece, pois, muito credível, que este homem, habituado a exercer o poder masculino, na ordem natural das coisas, acabe por ceder à influência da mulher, por mais que a ame. Embora a ideia dessa possibilidade me agrade.

 

Aliás, é quase reconfortante ver como, apesar da sua aparência frágil, esta jovem mulher parece conseguir domar o marido, aquele homem das cavernas, procurando construir uma relação igualitária no casal e o respeito pelas mulheres no círculo de amigos. Mas a verdade é que, quando são as próprias mulheres a submeter-se, como crianças, ao domínio masculino... já é mais difícil! Bem, conseguir sensibilizar o marido já me pareceu obra!

Mas em Cinema tudo é possível. E é bom que assim seja. Porque o Cinema, enquanto arte, influencia a vida. E de forma misteriosa e até imprevisível.

Sim, o cinema por vezes é a arte do impossível.

 

No final é esse texano, habituado a uma clara divisão de poderes e de tarefas, de classes sociais e de etnias, a defender direitos iguais para qualquer cidadão.

 

Sim, estes filmes arrumadinhos dos anos 50 começam no início, continuam no meio e terminam no final.

Neste caso, o final é simbólico: o futuro da América está no convívio pacífico e igualitário de homens e mulheres de diversas etnias. Duas crianças olham-nos directamente, em grande plano. Interessante imagem para concluir aquela saga familiar dos Benedict voltando-a para o futuro, não apenas o seu, mas de toda uma nação...

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:13

 

Talvez seja o fenómeno que me tenha sucedido neste fim-de-semana: uma overdose de filmes, e tudo por causa dos canais TV Cine da Zon.

Na 6ª (ou foi 5ª feira?), vio Ronda da Noite, construído à volta do quadro de Rembrandt com o mesmo título. Filme nocturno, quase todo à luz quente de velas, criativo na montagem, nas personagens e nos diálogos. Quase peça teatral em palco, mas com um ritmo e uma poesia que só o cinema permite. Hipnótico, pelo menos para mim. A vida terrena, no que tem de promissor e no que tem de dramático. A vida a pulsar, na sua realidade vivida quotidianamente, o seu lado prosaico e o seu lado doloroso.

E a razão daquele quadro, no que tem de revolucionário em termos artísticos, no seu lado rebelde, que procura desmontar a ilusão com a ilusão. Sim, quando os acessórios e as máscaras revelam mais do que escondem. Engenhoso. Genial.

 

Hoje iniciei com Love in the Time of Cholera, baseado no livro de Gabriel Garcia Marquez. Um amor quase obsessivo de um  homem sensível, que precisava de amor, pela sua Fermina.

Confesso o pecado mortal de não apreciar a generalidade dos escritores sul-americanos (à excepção do meu querido Jorge Luís Borges). Curiosamente, gosto de ver as adaptações cinematográficas dos seus livros. É que em filme soam muito melhor, as descrições intermináveis vêm resumidas, os devaneios, os sonhos, esse lado barroco que me desmotiva de imediato.

 

Se o amor para toda a vida é possível? Se é amor o que este homem sente pela sua eterna Fermina? Não querendo ser cínica, esse amor pelo menos levou-o a viver sucessivas paixões que foi anotando, melhor, registando e numerando. No filme chegou, pelo menos, às seiscentas e tal. Com o pretexto de a procurar esquecer, ou pelo menos, de adormecer a dor de a não ter.

Enternecedor, no entanto, o seu reencontro. E a forma como o amor é descrito por ele à sua amada, já viúva e livre, segundo ele, para o amar: em cartas poéticas e filosóficas.

Um Bardem vulnerável e comovente. E uma magnífica Fernanda Montenegro, a mãe que enlouquece no final.

 

Seguiu-se Paixão em Florença (Up at the Villa), que apanhei a meio, mas que ainda deu para ver uma magnífica Anne Bancroft, uma esplendorosa Kristin Scott Thomas e um sedutor Sean Penn.

O dilema: escolher a aventura amorosa ou a segurança afectiva? Ou ainda: escolher a verdade ou a simulação?

A mulher escolhe a verdade, o que a leva ao homem aventureiro. Que foi o seu herói nessa noite dramática. De onde se pode concluir que podemos encontrar um herói até mesmo num sedutor boémio.

Pode parecer frívolo, mas adorei o guarda-roupa deste filme! Situa-se no final dos anos trinta, com o poder em crescendo do Duce.

 

Acreditam que não resisti, em continuidade, a um outro filme, desta vez em ritmo de investigação policial, só por causa do Richard Gere?

The Flock. A novidade do filme? Talvez o tema: agressores sexuais, predadores e pervertidos que, quando referenciados, são envolvidos como informadores. Neste caso, o nosso protagonista começa a revelar perturbações mentais e emocionais que o levam a perseguir e a agredir esses indivíduos. O tema revelou-se enjoativo por todo esse horror do mundo psicopata, mas já estava com a curiosidade de saber se iriam encontrar a rapariga desaparecida. E se estaria ainda viva.

 

E ainda tive paciência para ver um filme desconcertante, produto de algum realizador imberbe americano (vai uma apostinha?): A Fúria de um Homem Discreto (He Was a Quiet Man).

Um homem que é vítima de humilhação no local de trabalho (a terrível linguagem do poder em grandes organizações, a lembrar-nos a cadeia alimentar dos predadores). Neste momento, já estava enjoada da espécie humana, acreditem! Depois da loucura e perversão psicopata, esta linguagem do poder soou-me kafkiana.

Interessante: a subida do andar térreo, dos funcionários insignificantes e obscuros, para o último andar, onde o poder se exerce. E de como o quociente de inteligência ou a criatividade não melhora com a subida de andares. O pior dos comportamentos humanos aqui em evidência no local de trabalho.

Interessante também, as rotinas solitárias e o desejo secreto de vingança, uma fantasia quase a passar ao acto: uma bala no tambor da pistola, para cada destinatário.

Finalmente, a relação improvável deste homem com a rapariga preferida do chefe, que ilumina qualquer sala com o seu sorriso. E tudo pela circunstância de um acidente: quem dispara engana-se, confunde-a com outra. E a bala deixa-a paraplégica, o mais vulnerável possível. Mas também aqui, a ilusão desfaz-e: o seu sorriso era pura sedução estudada, de uma mulher ambiciosa e calculista. Será que a bala lhe dá a possibilidade de sentir noutro lugar da sua geografia? Tudo parece apontar nesse sentido, até o novelo se enredar de novo, de forma kafkiana, como a realidade tantas vezes é.

 

Sim, este fim de semana abusei na dose cinematográfica. Imagens a sobrepor-se, diferentes cores, ritmos, personagens, épocas... numa mescla confusa.

Cada filme pede um intervalo para assimilar a ideia, saborear a imagem, rever uma ou outra cena, uma ou outra frase...

A ver se me lembro disto da próxima vez que ligar a televisão.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:54


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D